EDITORIAL | Quando tudo termina em pizza, sobra apenas a dor

Imagem ilustrativa

A notícia de uma mulher expelindo um feto de cinco meses na porta de uma maternidade não é apenas um relato de tragédia obstétrica. É o retrato de um sistema que falhou em sua missão mais básica: cuidar. O episódio ocorrido ontem em Fazenda Rio Grande não é um ponto fora da curva, mas o capítulo mais recente de uma história que se repete há anos, marcada por descaso, negligência médica e a certeza da impunidade.

A cada novo caso, o discurso oficial se repete com precisão quase mecânica. Fala-se em “rigor técnico”, “olhar humanizado” e “acolhimento à família”. Mas essas palavras soam vazias diante da imagem de uma mulher desamparada dentro de um hospital, expelindo um feto no chão, enquanto o socorro não vinha de quem tinha o dever de agir, mas de familiares, acompanhantes e até desconhecidos que presenciaram a cena.

Onde estava o rigor técnico no momento da triagem? Onde estava a humanização quando os gritos de socorro ecoavam e não encontravam resposta imediata da equipe que deveria estar preparada para emergências obstétricas?

Historicamente, o que se vê é um roteiro previsível e cruel: o caso acontece, a família denuncia, a cidade se revolta. Em seguida, vem a nota oficial prometendo apuração rigorosa. Depois, o silêncio. O tempo passa, a poeira baixa, o caso é arquivado na memória institucional. E, mais uma vez, tudo termina em pizza.

Enquanto isso, quem perde um filho ou um familiar carrega um luto que não prescreve e uma dor que não se apaga com comunicados institucionais. Há anos, relatos de negligência, atendimentos precários e óbitos mal explicados rondam a maternidade de Fazenda Rio Grande. Famílias entram buscando vida e saem com trauma, sofrimento e respostas evasivas.

Investigar é obrigação. Acolher também. Mas nenhuma dessas palavras pode servir de escudo para a ausência de responsabilização real. Humanização sem consequência vira retórica vazia.

É preciso romper esse ciclo. Não basta “acompanhar o caso”. É necessário que investigações saiam das gavetas, que sindicâncias resultem em punições quando houver falhas e que mudanças estruturais deixem de ser promessa eterna.

Fazenda Rio Grande não precisa de notas redigidas para conter crises. Precisa de uma maternidade que funcione, de profissionais amparados e responsabilizados, e de uma gestão que compreenda que saúde pública se faz com dignidade, não com discursos.

Até quando essas histórias terão o mesmo desfecho: silêncio, impunidade e famílias chorando na porta de quem deveria curar? A cidade não aguenta mais.

Editorial às 10h03

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