EDITORIAL | Mais casas, menos drenagem: o retrato dos alagamentos em Fazenda Rio Grande

Os alagamentos registrados em diversos pontos de Fazenda Rio Grande neste domingo (14) não são um episódio isolado, tampouco um “acidente climático” imprevisível. Eles escancaram um problema antigo, conhecido e reiteradamente ignorado: a falta de desenvolvimento adequado da infraestrutura urbana diante de um crescimento populacional acelerado e, em muitos momentos, desordenado.
O município protagonizou, nos últimos anos, um verdadeiro boom imobiliário. A cidade se expandiu, bairros surgiram, alguns prédios foram erguidos, muitas casas construídas e milhares de famílias passaram a chamar o município de lar. O resultado estatístico desse movimento é expressivo e incontestável. Segundo o Censo 2022 do IBGE, Fazenda Rio Grande foi a cidade que mais cresceu proporcionalmente no Brasil entre os municípios com mais de 100 mil habitantes. Houve um aumento populacional de mais de 100% — saltando de 81.675 moradores em 2010 para mais de 165.943 em 2025.
O problema é que esse crescimento não foi acompanhado, na mesma proporção e velocidade, pelos investimentos estruturais necessários. Sistemas de drenagem insuficientes, galerias pluviais subdimensionadas, ocupação intensa do solo e falta de planejamento urbano criaram um cenário em que bastam algumas horas de chuva mais intensa para transformar ruas em rios e a rotina dos moradores em transtorno, prejuízo e insegurança.
É preciso dizer com clareza: alagamento não é apenas um incômodo momentâneo. Ele afeta o direito de ir e vir, provoca danos materiais, expõe a população a riscos sanitários e evidencia desigualdades, já que os bairros mais afetados costumam ser aqueles onde a infraestrutura sempre chegou por último — ou nunca chegou por completo.
O crescimento de Fazenda Rio Grande é, sem dúvida, um sinal de dinamismo econômico e atratividade. Mas crescimento sem planejamento cobra seu preço. E quem paga essa conta, invariavelmente, é o cidadão comum, que vê sua casa, seu comércio ou sua rua alagada enquanto o debate sobre soluções estruturais segue sendo adiado.
Os alagamentos deste domingo devem servir como alerta definitivo. Não se trata mais de discutir se a cidade cresceu demais, mas de reconhecer que ela cresceu sem a infraestrutura compatível com sua nova realidade. Planejamento urbano, investimentos em drenagem, revisão do uso do solo e responsabilidade com o futuro não podem continuar sendo promessas genéricas. São necessidades urgentes.
Quando a água sobe, ela não traz apenas lama. Ela traz à tona escolhas mal feitas, omissões acumuladas e a conta de um crescimento que precisa, urgentemente, ser repensado.
Editorial às 08h





