
A nota de repúdio publicada pela Câmara Municipal de Fazenda Rio Grande nesta sexta-feira (27, transforma um debate público relevante em uma disputa política, mas deixa de abordar questões centrais que hoje preocupam a população: a gestão da saúde municipal e os apontamentos técnicos apresentados em um relatório de auditoria.
O debate que ocorreu durante a prestação de contas não surgiu do nada. Ele foi motivado por uma série de reclamações na saúde municipal e ao final, um relatório técnico de auditoria médica municipal que analisou o contrato com a empresa que administra o hospital, que aponta erros em atendimentos e faturamentos hospitalares vinculados a recursos públicos.
Entre os pontos levantados pela auditoria estão questões que vão além de opiniões ou interpretações políticas. O documento aponta, por exemplo, que o município mantém um contrato hospitalar com custo aproximado de R$ 2,7 milhões mensais e que a estrutura de auditoria responsável pela fiscalização foi posteriormente descontinuada, deixando o contrato sem acompanhamento técnico ativo específico.
Outro dado apresentado indica que apenas uma parcela reduzida do investimento retornaria diretamente em atendimentos destinados a moradores de Fazenda Rio Grande, enquanto parte significativa da estrutura financiada pelo município atenderia pacientes de outras cidades.
A auditoria também descreve inconsistências administrativas relacionadas ao faturamento hospitalar, incluindo divergências entre procedimentos solicitados e procedimentos cobrados ao sistema público, além da necessidade de análises individuais para verificar justificativas clínicas — tema que, inclusive, foi encaminhado ao Ministério Público que já apura a situação e também ao Tribunal de Contas do Estado.
Há ainda o registro de um chamado “evento sentinela”, envolvendo óbito após procedimento cirúrgico, apontado no relatório como caso que demandaria análise técnica aprofundada pelas autoridades competentes.
Diante desse contexto, o que a população espera da Câmara Municipal não é apenas uma manifestação de repúdio contra um veículo de comunicação, o Jornal O Repórter, mas o exercício de sua principal função constitucional: fiscalizar o poder público e promover o debate transparente sobre temas de interesse coletivo.
O Legislativo tem papel essencial justamente quando surgem questionamentos técnicos relevantes. Transformar críticas e questionamentos em confronto político não contribui para esclarecer os fatos nem para fortalecer a confiança da população nas instituições.
A democracia pressupõe debate, contraditório e fiscalização — especialmente quando se trata da saúde pública, área que impacta diretamente a vida das pessoas.
Mais do que responder a entrevistas ou opiniões, o momento exige respostas objetivas sobre gestão, fiscalização e transparência. Porque, no fim, o que está em discussão não é quem tem razão no debate político, mas se o cidadão está recebendo o serviço público que merece.
Da Redação às 19h13





